Restos
Ontem a noite(Segunda) fui num restaurante em Esteio. Pedi uma cerveja e acendi um cigarro e fiquei lendo o "Onde os velhos...". Nem preciso mencionar que todas aquelas páginas fizeram um estrago muito grande em mim. Geralmente elas me tiram alguma coisa.
Quando o meu "Bife a pé" veio eu comecei a servir meu prato e quando coloquei a primeira batata na boca aconteceu algo aqui dentro. Imediatamente fiquei triste. Apesar dela estar ótima eu tive lembranças muito queridas e tristes ao mesmo tempo.O bife, o ovo, tudo que eu estava comendo trouxeram-me lembranças de 10, 15 anos atrás quando eu, no verão jantava na casa da minha avó. Para ela e para mim era uma festa. Para ela porque eu ia na casa dela e conversávamos, um pouco com meu avô um pouco com ela. Ela sempre gostou de fazer comida para os filhos, para os netos ou ela disfarçava muito bem. As vezes a gente acha que as avós gostam destas situações pela felicidade que aparentam.
Isto iniciou no verão de 92 mais ou menos e se prolongou por alguns anos, sempre no verão.Eu chegava lá, de bicicleta e ia direto pra área onde meu avô estava com o chimarrão que ele tinha feito as oito horas daquele dia e já tinha levado uns 5 litros de água, bem lavado mas, não fazia a mínima diferença. É que nem aquelas vezes que você convida um grande amigo pra tomar uma ceva mas, nem está afim de beber. Eu bebia o chimarrão e meu avô me contava uns causos. Causos estes que foram se repetindo ao longo dos anos pois muitas vezes ele fazia uma "refilmagem", uma "releitura" destas estórias. Claro que sempre que ele me perguntava eu nunca dizia "sim já me contou". Lembro em 94 quando tinha cabelos compridos e eu sabia que meu avô, nascido no início do século passado achava cabeludo maconheiro, marginal enfim. Ele sempre contava uma estória de um sobrinho, afilhado, algo assim que era cabeludo e, ele falava muito mal do cara. Dae depois de malhar o cara por 20 minutos, ele se lembrava q eu também tinha cabelos compridos e dae falava "ahh mas o cabelo dele não era como o teu e tal", como se isto me tornasse um tipo diferente de maconheiro, na sua visão.
Quando a minha avó terminava de cozinhar os 20 quilos de comida que fazia, somente para eu comer ela me chamava. As vezes, meu avô vinha junto e na primeira frase que ele falava ela já cortava ele dizendo "tá, agora ele é meu, tu já falou com ele demais". Sentava ao meu lado na mesa e ficava me olhando comer. E quando falo vinte quilos estou exagerando, um pouco, apenas um pouco porque ela fazia muuuita comida e tenho testemunhas disso. Uma vez levei o Tuchê junto e, juntos não conseguimos comer tudo. Minha avó falava muito e com todos. Muitas vezes ela dizia algo engraçado sem querer . Ela era um tanto inocente em algumas coisas. E ela falava comigo várias coisas e o que mais me emociona disso tudo é que eu era o único neto homem e, ela teve dois filhos homens e dava pra ver o quanto ela gostava de mim, o quanto me admirava em tudo que eu fizesse, era quase um culto. Depois de comer e conversar mais um pouco ia pra casa, de bicicleta quase morrendo, pesado mas feliz pela visita, para o que aquelas jantas faziam para mim e sobretudo para eles.
Hoje sinto muita saudade não do culto e da admiração dela para mim mas do simples fato de chegar na casa deles e eles estarem lá. Tomar aquele chimarrão altamente vencido e lavado, ouvir os causos já conhecidos do meu avô. Comer a comidinha maravilhosa da minha avó e ouvir ela contar as coisas dela, perguntar coisas, rir etc. Acho que até o tempero peculiar dela eu nunca mais encontrarei em lugar algum. Nem ela nem meu avô encontrarei a menos que esteja errado e dessa vez eu gostaria que estivesse.
Sem comentários:
Enviar um comentário