Monodia - Esquerdo - 2006
A criança nasce. Neste momento seu índice de tristeza é praticamente 0 mesmo chorando a todo momento. Aos poucos ela vai crescendo e, começam a surgir os primeiros traumas, a saudade da mãe quando vai para a creche, a falta do colo antes tão presente e a vontade de brincar a todo momento. Na infância os traumas de duplicam o pai nem sempre vai poder brincar com o pequeno da casa, aos poucos o colo vai sendo raro afinal a criança agora é um peso, cansa segurá-la. Na adolescência as verdades começam a serem ditas e, aos poucos o mundo vai tomando forma para a ex-criança agora prestes a se tornar um adulto. Aos vinte e poucos anos praticamente tudo se torna um trauma e decepção e, se ex-criança não se preparar a vida a partir dae se torna uma tristeza, uma incerteza e, os amores não correspondidos, os momentos não mais vividos tornam-se lembranças e cicatrizes que nunca mais curam. Quando agente chega nos 30 ou nos tornamos conformados e pensativos ou depressivos e tristes a espera da morte.
Então esta criança encontra outras 3 ex-crianças e, as quatro tornam-se uma reunião, uma banda chamada Monodia. Com pouco mais de 3 anos de ensaios, shows escassos mas, muita vontade de queimar todas as decepções, chorar as lágrimas e, expor as feridas eles lançam este ano o primeiro álbum chamado Esquerdo. O disco parece um apanhado de uma vida(ou 4 vidas, ou todas as vidas), o medo do escuro, a convivência com a sua alma gêmea que talvez nem seja gemêa, talvez nem prima seja e, outras coisas decepcionantes desta trajetória chamada vida. Como a banda mesmo gosta de dizer, músicas emotivas, para sentir, para pessoas com sentimentos mas, eu pergunto, quem não tem sentimentos? - Eu mesmo respondo: - Todos temos sentimentos mas, muitos escondem tudo isto. Com "sorrisos vazios" tentam enganar a si e a todos mas, a verdade é uma só e mesmo que isto seja triste, a vida é muito triste. O consolo é saber que, somos todos iguais, todos sentimos e, estas músicas mostram e aprovam isto.
Outros falavam a mesma coisa, The Bends do Radiohead, Grace de Jeff Buckley, o próprio Morrissey com muita ironia exalava tristeza muitas vezes e, estes 4 nomes podem dar uma certa idéia do som da Monodia. As letras são todas em Português, claro, eles são brasileiros, porque seria diferente? Além disso, palavras de tristeza em outro idioma é a mesma coisa que usar maquiagem pra tapar uma cicatriz antiga de uma decepção que ainda existe. As palavras são todas doídas e, saem com muita dificuldade de Desireé, vocalista, guitarrista, produtora, idealizadora e mentora da banda.
As melodias são simples e bonitos mas, sofisticados acima de tudo. Reza a lenda que foi tudo gravado ao vivo sem muito overdub, com todo mundo sofrendo junto num parto que leva a dor mas leva junto o sorriso de ouvir uma música fiel ao ser humano e sua vivência. Carregada de bons efeitos as guitarras dão um clima todo especial as queixas da banda. Queixas porque a impressão que dá é que a banda diz pra você "Acorda meu, você também sente isto, também é assim com você, não finja que não é contigo". O baixo trabalha como uma guitarra grave em quase todos os momentos e a bateria tem exatamente o que precisa, firmeza, ritmo, tempo e qualquer outra coisa vinda de um baterista é acessório inútil, enfeite. Ainda mais pra mensagem que se quer passar ou mesmo parecem querer passar.
A música "Noite", quinta faixa é a coisa mais linda que ouvi este ano. Mais verdadeira e sincera também. Desta vez Desireé praticipa como coadjuvante porque Ernani dá todo o recado mostrando que a coisa toda é sentida por todos. Desta vez o recado é sobre a união das pessoas, uma união que supostamente seria para confortar a ambos mas, na maioria das vezes cria mais cicatrizes para uma vida tão sofrida. O instrumental mais uma vez perfeito, uma base lo-fi que lembra algumas baladinhas tristes do Pavement(Here) utilizando ecos, reversos, distorções tudo medido e, milimetrado na medida certa. Esta faixa deveria ser a última do disco, deveria ser a porta de saída do disco porque fecharia esta obra de arte com chave de ouro e, talvez apontasse para o futuro ainda mais promissor.
Deveria ter escrito sobre o disco, era o que eu me propunha a fazer. No início confundi tudo com a vida, depois confundi com minha própria vida e, agora no fim vejo que minha vida é igual a deles. Descobri também que, a vida deles é igual a de todos nós com a sutil diferença é que alguns riem vazio tentando esconder as verdades, outros tocam como eles e, sabem como funciona a nossa trajetória. Grande registro, grande disco e, no berço do "roque gaúcho" do rock irreverente, dos mods, do rock engraçadinho e irônico, temos uma banda verdadeira, que sente, respira, chora e nos conta tudo isto.
O disco foi lançado independente mas está todo no trama virtual e no myspace. Não é um disco para todas as situações nem para todas as pessoas. É um disco pra pessoas que não se enganam, pra pessoas sensíveis e, que sabem admirar a beleza e que já chegaram naquele ponto da vida que poucas verdades faltam para serem descobertas.
Monodia é Desireé(vocais,guitarra,violino), Ernani(guitarra,vocais), Zack(bateria) e Claus(baixo).
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