Um dia tudo acaba...
Retrocedo aos anos 90. Meus pais na praia, minha irmã também e eu sozinho em casa por motivos profissionais.. Meu horário de trabalho era das 8:00 da manhã as 14:00 da tarde. Quando chegava em Esteio, as três da tarde via TRENSURB eu encontrava os amigos que não trabalhavam e, íamos para o clube aliança pra jogar tênis e, tomar banho de piscina. Naquela época era mais do que tranquilo usar o trêm, que raramente lotava e era bem tri o clube. Naquela época eu ainda não sabia nem fazer um ovo frito e por esta e por outras coisas eu ia na casa dos meus avós para jantar.
Chegava lá por volta das sete, oito horas da noite e, a vó ia correndo pra cozinha mas não sem antes perguntar o que eu queria comer. Eu sempre dizia qualquer coisa e, ela muito insegura fazia algumas sugestões que eu sempre acatava. Enquanto isto, eu ficava com o meu vô tomando chimarrão e, ele me contava algumas histórias de sua juventude, sua experiência e etc. Depois de um tempo a vó chamava e, iamos nós dois para a mesa e, a vó sentava do meu lado e, agora era a vez dela de pedir a atenção do neto.
A comida dela era muito boa, o único problema era que ela era insegura e, sempre fazia um milhão de pratos e, em grande quantidade. Eu tinha que comer muito pra vencer ela e, sempre perdia, era humanamente impossível. E dae sobrava alguma coisa e, ela dizia que eu não tinha gostado da comida. Dae eu ficava uns quinze minutos convencendo ela que, era muita comida e, eu não conseguia comer tanto assim que tava tudo ótimo, coisa e tal.
Meu avó por sua vez me contava histórias, muitas histórias ou estórias contadas repetidas vezes. Nem sei quantas vezes ele contou a mesma história mas, mesmo assim era como se fosse a primeira vez. Não que ele fosse um grande contador de histórias mas, dava pra ver nos olhos dele o prazer que era ter eu ali, junto com ele. Da mesma forma minha avó adorava cozinhar pra mim e me ver comendo. As vezes eu ficava um dia sem ir lá e, no outro dia eles me perguntavam porque eu não tinha ido. E a minha vó me puxava e me falava que, meu avó tinha ficado triste e tal, que ele gostava quando eu ia lá e, pouco depois meu avô me falava a mesma coisa. Dizia que minha vó tinha ficado triste porque eu não tinha ido.
Esta história se repetiu por vários verões. Até o momento que aprendi a cozinhar, que arranjei uma namorada ou mesmo que esta hora da noite eu tinha coisas, que julgava mais importante pra fazer que me impediram de ir lá. Obviamente continuei visitando eles e, obviamente eles lembravam com muito carinho daqueles verões.
Há mais ou menos uns cinco anos, meu avô que dispunha de uma saúde de touro e mesmo no alto de seus oitenta e tantos tinha uma postura de cinquentão ficou doente. Começou a sofrer de uma doença das piores, cancer. De lá pra cá ele foi decaindo, foi ficando cada vez menos ativo, apático e, depois de sentir dor por uns 3 anos veio a falecer aos 90 anos. A minha avó, que não tinha tanta saúde também começou a ficar menos ativa, a cabeça cada vez mais devagar e nos últimos meses tinha raros momentos de consciência.
Semana passada minha avó foi no medico e, ele disse que o coração dela estava fraquinho e que era bom até evitar caminhadas e outros esforços. No Sábado após o jogo do Brasil ela simplesmente deu um suspiro e, morreu. Foi um fim de semana terrível pra mim. Mais uma vez fui lembrado que, nada dura pra sempre e, que, a vida é uma passagem. Em um momento teu cenário, amigos e, família propriamente dita é uma coisa mas, talvez nos próximos 10 anos a coisa não será a mesma.
Anteontem foi meu avô, ontem nasceu o Heitor e, hoje faleceu minha vó. Sempre falta fazer alguma coisa, sempre sobram palavras porque elas não podem mais serem ditas e, nunca vou me perdoar por isto.
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